quarta-feira, 19 de junho de 2024

Venha insônia, 

Mas esta noite venha completa.

Meu peito está nú

E a alma deserta!


19/06/2014

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Ainda sem título

Ela vira para mim e diz:


- Faz um tempão que to a fim de você...

- Sei.

- Mas você sabe que estou me separando.

- Sei.

- Só que eu não aguento mais!

- Sei.

- Tenho muito de mim para dar para você, só que ninguém pode saber. Tenho filhos, marido, uma reputação a zelar... Vamos pro hotel pelo amor de Deus?!


Pedindo com esse romantismo todo eu fui. 


Bom... Como eu não sou daqueles que pagam caro para ficar olhando hidro e teto solar, vou pular esta parte. 


Depois de ter recebido um trato e ter dado um trato daqueles, ela foi embora e eu fiquei no hotel. Aí sim fui ver teto solar e hidro.


No dia seguinte quando acordei com a TV ligada no jornal, o reporter informou:


São Paulo tem a noite mais quente dos ultimos 16 anos.


Desliguei a tv irritado.


Não era pra contar e até na TV já tá passando!!!


(esta história é uma obra fictícia, qualquer semelhança com a realidade, é mera coincidência)


04/02/2014

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Cansaço

Sinais de que você está realmente cansado:

O celular ou a falta dele só é percebido depois que você está no ponto de ônibus, a caminho do trabalho.

Você tira o cartão de crédito da carteira e depois de duas tentativas você repara que ele é vermelho e não levemente roxo como o bilhete único mensal... Mas não antes de tentar passar ele  no leitor do ônibus. Não antes do cobrador lhe avisar. Não antes de passar ele na camisa achando que há uma mágica universal que o pano revela ao ser friccionado em um bilhete magnético.

Compra 600ml de Coca-Cola achando que vai acordar...

Na catraca do prédio você tira a chave de casa, mas percebe que ela não se encaixa na fenda.

Começa a trabalhar e se esquece da Coca. O gelo derrete. Você pega o copo de plastico que estava com Coca e enche de café. Toma... Mas que merda! Pensa: " o que é um peido para quem tá cagado?" Toma o resto.

Às 16 e qualquer coisa das horas do dia, uma tabela do Excel não consegue fazer um simples calculo de 36 - 18... E você ão encontra o erro. "DEUS, quem foi que brincou com os números???" - você pensa! Em seguida, seu chefe pergunta a que horas o resultado, que está atrasado, ficará pronto...  Deu vontade de chamar o cara da TI, mesmo sabendo que eles não lidam com fórmulas, mesmo sabendo que eu sou o cara da TI...

Saio para fumar. O crachá não passa... Bem que o plano odontológico poderia ser integrado à catraca da empresa... Mas não é! Só tem um cigarro no maço, e mesmo sendo de filtro vermelho, acendo o filtro... Raios, trovões, carambola!

Subo. Informo o chefe de que não acho o erro. Ele se senta ao meu lado e em um minuto faz o que não consegui durante horas.... Bom, é por isso que ele é o líder e eu não!

Saio do trabalho. Paro em um bar.

- Uma Skol e um maço de Marlboro.

Pago. "Acendo um cigarro ao pensar (..) e saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, e gozo, num momento sensitivo e competente, a libertação de todas as especulações e a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto."

Saio do bar e pego o ônibus. Depois que passo a catraca usando o cartão certo, percebo que não bebi a cerveja que o atendente abriu e cuidadosamente me serviu!

Desço no terminal, vou a uma loja de doces. Comprar doces para a namorada. Tudo dá certo. Tomo uma cerveja no bar ao lado. Tudo da certo. Pego o ônibus e vou pra casa. Tudo da certo. Chego ao quarto e pego o celular: 27 ligações não atendidas... 2 da namorada e o resto de um numero que não atende e não sei quem é!

Deve ser boa noticia, porque as más sempre nos encontram todos os dias.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Copa do Mundo II

Você acabou de almoçar: está distraído, fumando um cigarrinho tranquilamente, pensando na inevitabilidade da morte da cabrita, quando um filho de uma puta assopra a porra da vulvuzela quase dentro de um dos seus tímpanos...

Ele sorri e diz:

- Vai Brasil!!!

Você sorri e pensa: " vou enfiar essa merda no seu cú e assoprar com toda força que sou capaz!"

A imagem da catástrofe iminente se forma em sua mente: é sujeira para tudo e quanto é lugar. Você não se controla e ri muito.

Ele observa você, e, indo embora, diz que você é um cara de bom humor!!!

São Paulo - 28/06/2014

Copa do Mundo

Copa Mundial: entre 30 mil pessoas, coladas umas às outras, ela grita:

- Avangard Brrrazil!!! - sotaque forte, recheado de erres...

Você olha e pergunta:

- Je parle françois?

Ela responde:

- No, I speak ingles.

Você diz:

- Where are you from?

Ela comenta:

- No ablo otras linguas...

Seu braço a envolve e seus lábios se abraçam. 

Se línguas fossem corações, nessa hora os corações dos dois estão entrelaçados.

Ela sussurra em seu ouvido: 

- Sou da Freguesia do Ó!

Você ouve, olha, lasca outro beijo e diz:

- Mesmo bairro...

São Paulo - 28/06/2014

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Semper Fidelis

Abril,
Abril...

Abre-se em mim,
Como um rasgo no peito:
Mãos, senhoras de garras,
Que me fincam as unhas à carne,
Que me abrem o peito,
Irrompem-me os ossos,
Estraçalham-me a carne,
Vasculham-me o interior
E não encontram-me em meu coração...

Abril,
Abril...

Abre-se em mim
Todas as coisas que se fecharam ao mundo:
Tanto de tudo de tantos e de todos...

E solto-me: de todos os laços e prendas
De amarras e amarantos;
De coisas e suas coisificações...
E encontro-me nu
Onde a noite se cala,
Onde o breu é mais breu
E sua negação é a afirmação de si próprio.

Abril,
Abril...

Dos sonhos que não me lembro,
Pesadelos que me recordo;

Do meu amor mais puro,
Que se enterra na morte;

Do meu sofrimento e dor,
Que se vive no renascimento;

Da mais pura verdade
Que começas na mentira;

Abril...
Abril.

Eder De Sousa Boaventura​


escapadasnoturnas.blogspot.com

domingo, 3 de agosto de 2014

Ocaso ao Acaso




Sinto teu sorriso,

Tua pele a me tocar,

Quando vejo o sol

Que se põe no azul do mar.




Tudo tão bonito,

Natural e espontâneo.

Tudo tão distante,

Irreal e momentâneo...



... um fim de tarde sem você.





São Paulo, 04 de Julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

Um Domingo Qualquer








Deitado sobre a grama, sob a sombra de uma árvore frondosa, em um parque público, ele estava quase cochilando de tédio ao folear as páginas de uma revista semanal, quando a viu caminhando em sua direção: pequenos passos firmes, decididos e levemente acelerados conduziam aquela pequena criaturinha.



Um vento lateral alinhara os cabelos castanhos claros dela para o lado direito da face formando uma linda assimetria; normalmente isso a teria incomodado ao ponto de retirar o elástico de cabelo que carregava em um dos pulsos e prendê-los em seguida. Foi quando ele reparou que suas mãozinhas estavam unidas em forma de uma conchinha e no seu rosto o mais belo sorriso que uma criança de quatro anos poderia esboçar.

Ao se aproximar, ela desacelerou os passos tranquilamente e adotou uma postura calma e serena... Igualzinho a mãe, pensou ele e sorriu.

- Aconteceu alguma coisa?

- Shh... – sibilou ela entre os pequenos lábios.

Como se possuísse uma espécie de pequeno e raro tesouro ela se sentou ao lado dele.

- O que tem aí?

- Fala baixo pai!

- Tá - disse ele sussurrando. Mas... o que tem aí?

Ela levou as mãos fechadas em direção ao rosto dele e, suavemente, as abriu um pouco. Ele espiou dentro, mas não conseguiu ver o que era.

- Não consegui ver o que era.

- É uma joaninha!

- É?

- É!

- E por que estamos sussurrando?

- O que?!

- Su - ssu - rran – do: falando baixinho.

- Ah... é para não assustar ela, ora!

Uma brisa suave lhe trouxe um aroma familiar e ele sorriu.

- Não precisamos sussurrar, ela não entende o que falamos.

- Você quem pensa!

Ele riu. A cada dia que se passava, a cada conversa, em cada gesto, ela refletia a beleza e a personalidade da mãe em tudo.

- E o que você pretende fazer com ela?

- Levar ela para casa.

Ele desfez o sorriso e olhou-a intensamente nos olhos.

- Não podemos.

- Por que não?

- Porque, em algum lugar, ela deve ter uma família que está esperando ela voltar.

- Mas... e se não tiver?

- Ana... esse bichinho...

- Joaninha!

- Tá: essa joaninha que você tem entre as mãos não é o tipo de... bichinho que você pode ter em casa. Olhe em volta filha, nossa casa não se parece com um parque que é onde as joaninhas vivem. Além do mais você sabia que elas voam?

- Sabia. Foi ela que veio até eu.

- Até mim. Repete.

- Foi ela que veio até mim.

- Isso. Então, não é justo prender um ser vivo que não fez mal algum a alguém e que foi feito para voar.

- Mas a vovó tem aquele pássaro amarelo...

- ...que fica o dia todo preso e nem canta mais de tanta tristeza que sente!

- Os pássaros... quando estão tristes não cantam!?

- Não só os pássaros...

- Então por que as pessoas prendem eles?

- Egoísmo.

- O que é isso?

- É um sentimento ruim. Surge quando você - e ele apontou o dedo indicador para ela - toma uma decisão sem levar em consideração as consequências que afetarão a outra parte - e moveu o dedo que ainda estava apontado para ela em direção as suas mãozinhas unidas.

- Eu sou ego... ego...

- E - go - ís - ta.

- Egoísta. Eu sou egoísta?

- Não, você não é egoísta, mas está agindo como se fosse. O que sua mãe disse quando você mostrou a joaninha para ela?

Ela levantou a cabeça, olhou em direção a árvore sob a qual estavam, e tornou a olhá-lo novamente.

- Nada.

- Sei...

Ana ficou olhando para as mãos durante um tempo, e através das pequenas expressões que sua face demonstrava, ele percebeu que o pequenino cérebro por trás daquela radiante beleza estava processando as informações para decidir o que faria logo em seguida.

- Eu não me lembro onde eu estava quando ela veio até mim... Queria deixar ela no mesmo lugar.

- Não tem problema, meu anjo, é só soltar. Ela dá um jeito de chegar onde tem que ir.

Enquanto ela abria as mãos, ele se ajeitou e escorou as costas no tronco da árvore. A joaninha demorou um tempo até que se desse conta de que não estava mais presa e voou. Ana sussurrou um “tchau”, sentou-se ao lado do pai e encostou a cabeça em seu peito.

- É verdade...

- O que é verdade, Ana?

- Não são só os pássaros...

Ele ficou digerindo suas próprias palavras que retornaram através da pequena Ana.

- Por que você não vai brincar um pouco filha? Daqui a pouco vamos voltar para casa e você não aproveitou nada deste dia.

A princípio ela deu de ombros, mas tão rápido quanto tinha se decidido por ficar, levantou-se e saiu correndo em direção ao playground.

Ele esboçou um sorriso e disse:

- Você me apronta cada uma, hein mocinha?

Bel se deslocou da parte de trás do tronco da árvore e se sentou ao lado dele.

- Isso foi para mim ou para ela?

- Essa é para você, mocinha. Por que não explicou a ela que não poderia levar a joaninha para casa?

- Por que você explicaria melhor.

- Vai chegar um dia em que será você quem terá que explicar algumas coisas para ela.

- Eu sei... Mas até lá nós duas temos você.

- Sei...

- Eu sei que você sabe... gosto quando já sabe. E por falar nisso, quando foi que você descobriu que eu estava aqui?

- Percebi pelo seu perfume, o vento mudou de direção e entregou sua proximidade; e depois quando ela olhou diretamente para você e você fez um sinal para que ela ficasse em silêncio.

- Como você viu, se estava de costas!?

- Não vi. Ana teria dito que você pediu para que ela viesse me mostrar e perguntar se podia ou não ficar com a joaninha, mas quando você a sinalizou ela ficou confusa e tudo que saiu foi “nada”.

Bel se aninhou ao peito dele, assim como Ana havia feito minutos antes. Agora, próximo ao rosto dele, o inconfundível perfume de Bel era total e predominante. Ela se virou e apoiando a cabeça em seu colo sussurrou:

- Quer saber de uma coisa?

- Quero - respondeu ele no mesmo tom.

- Estou com uma vontade danada de cantar!


São Paulo, 04 de julho de 2014

Fresta



FRESTA



Sobre os espaços abertos
Jaz dentro de mim
Estruturas de concreto
Quase sem fim.

Um abstrato labirinto
Tão intransponível;
Um presídio do que sinto
Ser intangível!

Há uma ânsia de correr
Pelos corredores,
Há um desejo de viver
Livre de dores

E encontrar uma passagem,
‘Inda que uma fresta,
Para outra vida ou viagem
Sem que seja esta...

... Sem que seja esta.



04/07/2014




quinta-feira, 1 de maio de 2014

Abril Despedaçado



Abril, meu Abril querido...
Começou despedaçado
E finda despedaçando.

Afundo-me em mim mesmo
Sendo o abismo de minhas expectativas,
A vala dos inomináveis:

Sou a solidão de mim mesmo
Que sempre se renova
E nunca tem fim.

São Paulo, 30 de Abril de 2014

domingo, 22 de setembro de 2013

Gentileza Gera...


 "A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade(...)"
- III Lei de Newton




O ônibus chega ao ponto.

Para ser gentil, você deixa aquela senhora que aparenta ter 720 anos subir à sua frente. Olha para trás e percebe o povo fazer cara feia: ninguém gosta de esperar os dois anos que ela demora para subir os degraus.

Quando sobe, percebe que existem apenas dois lugares vagos: um para idosos, outro comum. Estava escrito, pensa consigo mesmo. Só poderia... Vai sentado, recuperando o sono. Nem acredita! Viu? Quem disse que a vida não ajuda quem ajuda os outros? Hã, hã? Heim, heim?

Então, dotada de incrível agilidade, aquela senhorinha (a tia do Mun-Rá) senta-se no lugar comum e antes que você se dê conta vai seguir em pé o caminho inteiro...

Naquele momento sentimentos poderosos dominam seus pensamentos. Uma névoa negra se forma ao redor de você. Raios de raiva curiscam o firmamento do seu cérebro.

Você a olha nos olhos.

Ela sorri.

Sorte a dela você não ter visão de calor...

 





São Paulo, 21 de Setembro de 2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

"Pergunte Aos Universitários"



A aula está pesada.

Você desce.

Fuma um cigarro.

Reflete se sobe de volta ou não...


Da um pulo no bar como quem procura uma desculpa para não voltar e a encontra: conhecidos com cervejas conhecidas.


Você toma um copo.


O líquido escorrega pela garganta e se aloja em seu corpo como um nenê em ventre materno.


De repente, entre tantas pessoas que tem no bar você sente um corpo forçando as suas costas. Vira-se para reivindicar o seu espaço e se depara com uma coisinha linda.


Ela sorri.


Você idem.


Vira-se para os amigos e continua o bate papo.


Daqui a menos de cinco minutos ela esbarra em você novamente. Desta vez, o segundo encontro dá vazão para um blábláblá entre os dois.

Você fuma, ela fuma.


Você esta tomando uma breja, ela também.


Você com seus amigos, ela com os dela.


Ela pergunta o que você faz.


(Hum, tá querendo sondar. Você pensa.)



Você diz que estuda ADS.


ADS? Ela pergunta.


Você pensa: "que besta que sou, ninguém é obrigado a saber o que siglas representam!" E explica o que é.


Legal, ela diz.


Você pergunta o que ela faz.


Pedagogia, ela responde...
















... e após um momento de reflexão, seu cérebro não se lembra para que serve isso! Um tanto sem graça você pergunta qual o conteúdo da aula. E para sua surpresa ouve:



- Nós cantamos musiquinhas em francês, fazemos recortes, colagens com jornais e revistas e também joguinhos para crianças.


- Ah...


De repente você olha no relógio de pulso que não possui e diz:


- Putz!!! tenho um trabalho para entregar! Depois a gente se fala!


Ela sorri.


Você parte.


Subindo os degraus, voltando para sua aula, você pensa consigo mesmo: musiquinha, recorte, joguinho??? Como é o TCC, então? Preencher um caderninho de palavras cruzadas? Molde com massinha? Brincar de pega-pega com a banca que avalia o projeto/tese?


E então você se dá conta do quanto sua aula estava bem mais atrativa!



São Paulo, 13 de setembro de 2013

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Beijos



O sol beija o mar,
As vezes beija a lua
Como o dia beija a noite
E assim nos beijamos:

Sempre e nunca.

05/09/2013

sábado, 10 de agosto de 2013

O Ministério da Saúde Adverte?



"Quando a morte conta uma história, 
você tem que parar pra ouvi-la."
  - Markus Zusak


Já passava da meia noite quando desci do ônibus e entrei em uma viela que liga a avenida principal do bairro onde moro à rua da minha casa.

Saquei um cigarro do maço e coloquei-o na boca; peguei o isqueiro com a mão direita, já que a esquerda estava ocupada com o celular e, quando ia acender o cigarro, notei que um homem vinha em minha direção...

O fato de eu ser pequeno faz com que veja qualquer pessoa com mais de um metro e oitenta de altura como se fosse um gigante, mas aquele cara era bem maior que isso. Não bastasse o seu tamanho e o fato da viela não ter iluminação alguma, o sujeito era tão negro. Não que eu seja preconceituoso, mas não poder distinguir uma pessoa na calada da noite não é algo que me deixa confiante.

Quando se aproximou um pouco mais, consegui identificar o sujeito pelo uniforme: era um policial. E por um momento não soube se deveria ficar tranquilo ou preocupado: a arma que, normalmente, deveria estar no coldre, estava à mão!

 Como havia um carro estacionado na viela, calculei que, se eu fosse - um pouquinho só - para a direita, haveria espaço suficiente para que nós dois passássemos lado a lado sem que um esbarrasse no outro. E assim o fiz: enquanto andava, direcionei-me, suavemente, uns vinte centímetros ou pouco mais para a direita... Subitamente, ele se moveu cerca de um metro ou mais em minha direção.

À medida que se aproximava, percebi que seus olhos estavam injetados: aquela parte branca dos olhos, a esclera, que, normalmente, deveria ser branca, estavam vermelhas... Vermelhas demais.

- 'Ta vindo do trabalho? - E ao mesmo tempo em que fez a pergunta com aquela voz cavernosa, sua mão esquerda procurava algum objeto suspeito à altura da minha cintura. Por instinto ergui as mãos próximas à cabeça. Celular na esquerda, isqueiro na direita e cigarro à boca.

- Da faculdade.

Apontando a cabeça em direção a minha mochila, ainda me revistando com a mão esquerda disparou:

- O que tem aí? 

Movido por uma frieza absurda que dominou minha mente naquele instante, respondi num folego só:

 - Um caderno um guarda-chuva uma revista uma camisa de flanela uma jaqueta esportiva dois livros e um estojo.

Por alguma razão que desconheço, se ele me perguntasse o que havia dentro do estojo ou quantos zíperes tinha a mochila eu também saberia responder.

- Tem passagem?

- Não. Nenhuma.

- Usa drogas?

Esta pergunta me deu uma certa vontade de rir, mas eu resisti bravamente. Sinceramente, observem a situação: é madrugada, você encontra com um policial em atividade para lá de suspeita, olhos estranhamente vermelhos, com a arma na mão e você responde o que mediante uma pergunta desta? Que fuma um baseado, que cheira um pó, que se injeta... Só se estiver muito chapado!

- Não. Nada.

Um pequeno silêncio de cinco segundos pesou entre nós. E eu ainda estava com as mãos à altura da cabeça: celular em uma, isqueiro na outra e cigarro à boca.

- Mora por aqui?

- Naquela rua. - Disse, apontando com a cabeça, o nome da rua em frente à viela e o número da minha casa.

- Vai pra casa, filho. 

- Obrigado. Boa noite e bom trabalho.

Ainda possuído por aquela frieza absurda, caminhei os quatro metros mais distantes da minha vida, e em nenhum momento, nem sequer um lampejo de pensamento, passou pela minha cabeça a necessidade de olhar para trás.

Os quatrocentos metros seguintes, que separam a viela da minha residência, passaram-se em um piscar de olhos. E somente quando fui pegar a chave para abrir o portão, percebi que o celular continuava na esquerda, o isqueiro na direita e o cigarro apagado à boca. 

Sentei no pequeno degrau que separa o portão da calçada, e pensei: um policial andando sem parceiro, à meia noite, sem viatura, em uma vielinha sem iluminação, na periferia de São Paulo, onde já ocorreram diversos assassinatos e execuções não resolvidas, com a arma em punho? 

"Quem eu realmente vi naquele momento? Um policial com conjuntivite? Um lobo solitário ou um cachorro louco? Tem diferença? Teria sido a própria morte? Um encontro destes, o Ministério da Saúde Adverte?  

Inevitavelmente veio-me à mente: "Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando." E querem saber? Pessoa estava certo... Dane-se o politicamente correto: acendi o cigarro e fumei... E aquele foi o cigarro mais saboroso que fumei até hoje!  




São Paulo, 10/08/2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

Não Era, Mas Foi



Durante as manifestações que ocorreram por todo o pais, também conhecidas como "Movimento Quero Meu Vintém De Volta", uma organização ultra secretíssima formada por pessoas não favoráveis a organizações e manifestações aprontava-se para fazer uma passeata contra os manifestantes que faziam passeatas.

De cartazes a mão, com gritos de ordem e cheios de ânimos para lotarem as ruas de são Paulo, desistiram na ultima hora, pois uma ala de radicais lembrou que o que estavam prestes a fazer feria o propósito da organização contra manifestantes que fazem passeatas!

Depois de um embate acalorado e desproporcional utilizando-se de palavras que tentam explicar o propósito de ações despropositadas, chegaram ao consenso de que o grupo acabaria, por ter ido contra o seu verdadeiro propósito... e como era uma sexta feira foram todos tomar cervejas em suas respectivas casas, solitariamente...

Uma semana após as passeatas, conhecidas entre os meios políticos como o movimento dos “Les Misérables”, milhares de políticos tomaram as principais ruas das grandes cidades do Brasil, e, erguendo seus cartazes - para as emissoras de T. V. - gritavam a plenos pulmões:

- O povo vendido, jamais será unido!


Anos mais tarde, ao analisar o movimento que ficou conhecido como "Até Judas Pediu Mais", pois chegou-se a conclusão de que até Judas ousara realmente pedir mais, descobriu-se o valor do ser humano e respectivamente de uma nação: R$0,20!!!

Durante os trinta anos que se seguiram o país não teve grandes mudanças:
o Brasil não foi hexacampeão; os estádios estavam lotados, a presidente Dilma Rousseff - com a ajuda do Lula, novamente - conseguiu ser reeleita em 2014, os ônibus continuaram superlotados, com tarifas cada vez mais caras; a saúde pública e a educação ainda são deficientes, a redução da maioridade penal demorou seis anos para ser aprovada (atualmente é dezessete anos), a maioridade eleitoral também foi aprovada (atualmente é de quatorze anos).
 
Tentaram recriar o mesmo movimento durante os Jogos Olímpicos de 2016, mas a tentativa foi frustada porque naquele ano o governo não permitiu o reajuste das passagens.
Descobriu-se mais tarde que R$ 0,20 não fez falta a ninguém; que grande parte dos políticos continuam sendo suspeitos de fraude, roubo, furto e formação de quadrilha, mas ninguém liga...e todos voltaram a sorrir no país do futebol. 
Não era só por vinte centavos... mas ficou sendo!

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Seção Quadras Singulares:
XV: Fato

 
 
O papel é coisa ingrata:
Presente em qualquer banheiro;
Nele se imprime dinheiro
E até poesia barata!
 
29/05/2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

Concepções



Nada é nunca.
Nunca é nada.

Nunca nunca nunca
É
Sempre sempre sempre.

Nem sempre:
Nem sempre.

Eternamente...
Eterna mente.


28/05/2013

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Dez Coisas Para O Coração Refletir



1 - A fala é a expressão do pensamento, assim como o beijo é a do desejo.

2 - O que mais gosto das nossas conversas é a profundidade do nosso silêncio. É ensurdecedor!

3 - Infelicidade é o nome que damos para tudo aquilo que o destino não quer que tenhamos...

4 - Poesia é a arte de fazer amor com as palavras. 

5 - Apaixonar é colocar o coração nu sob o sereno e rezar para que ele adoeça!

6 - Não sou imagem. Sou imaginação. 

7 - A pior prisão é a mente estar a milhas distante do corpo e os dois incomunicáveis com o coração.

8 - Saudade é sentença de morte que se cumpre em vida.

9 - Amar e não ser amado é ocasional, mas dizem ser loucura. Loucura maior seria nem sentir.

10 - Ainda que estejamos distantes sei, sinto, que minhas palavras chegarão até você.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Dispersão



Desfez-se do tempo
Como fosse roupas:
Atirou as horas
Num canto qualquer,
Deixou os minutos
No sofá da sala
E ficou em casa
Usando somente
Sensuais segundos...


24/05/2013

quarta-feira, 15 de maio de 2013

... Nua à Luz da Lua



... Nua à luz da lua
Lá fora ela aflora:
Imersa, dispersa,
Singela, tão bela...

... Nua à luz da lua,
Vento contra intento,
Desnuda, ela muda
Serena, tão plena...

... Nua à luz da lua,
Fina, ela se volta,
Revolta e se inclina
No ar a bailar...

... Nua à luz da lua,
Finda quando escorre,
Morre quando linda:
Boa esta garoa...

... Nua à luz da lua.



14-15/05/2013