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domingo, 22 de setembro de 2013

Gentileza Gera...


 "A toda ação há sempre uma reação oposta e de igual intensidade(...)"
- III Lei de Newton




O ônibus chega ao ponto.

Para ser gentil, você deixa aquela senhora que aparenta ter 720 anos subir à sua frente. Olha para trás e percebe o povo fazer cara feia: ninguém gosta de esperar os dois anos que ela demora para subir os degraus.

Quando sobe, percebe que existem apenas dois lugares vagos: um para idosos, outro comum. Estava escrito, pensa consigo mesmo. Só poderia... Vai sentado, recuperando o sono. Nem acredita! Viu? Quem disse que a vida não ajuda quem ajuda os outros? Hã, hã? Heim, heim?

Então, dotada de incrível agilidade, aquela senhorinha (a tia do Mun-Rá) senta-se no lugar comum e antes que você se dê conta vai seguir em pé o caminho inteiro...

Naquele momento sentimentos poderosos dominam seus pensamentos. Uma névoa negra se forma ao redor de você. Raios de raiva curiscam o firmamento do seu cérebro.

Você a olha nos olhos.

Ela sorri.

Sorte a dela você não ter visão de calor...

 





São Paulo, 21 de Setembro de 2013

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

"Pergunte Aos Universitários"



A aula está pesada.

Você desce.

Fuma um cigarro.

Reflete se sobe de volta ou não...


Da um pulo no bar como quem procura uma desculpa para não voltar e a encontra: conhecidos com cervejas conhecidas.


Você toma um copo.


O líquido escorrega pela garganta e se aloja em seu corpo como um nenê em ventre materno.


De repente, entre tantas pessoas que tem no bar você sente um corpo forçando as suas costas. Vira-se para reivindicar o seu espaço e se depara com uma coisinha linda.


Ela sorri.


Você idem.


Vira-se para os amigos e continua o bate papo.


Daqui a menos de cinco minutos ela esbarra em você novamente. Desta vez, o segundo encontro dá vazão para um blábláblá entre os dois.

Você fuma, ela fuma.


Você esta tomando uma breja, ela também.


Você com seus amigos, ela com os dela.


Ela pergunta o que você faz.


(Hum, tá querendo sondar. Você pensa.)



Você diz que estuda ADS.


ADS? Ela pergunta.


Você pensa: "que besta que sou, ninguém é obrigado a saber o que siglas representam!" E explica o que é.


Legal, ela diz.


Você pergunta o que ela faz.


Pedagogia, ela responde...
















... e após um momento de reflexão, seu cérebro não se lembra para que serve isso! Um tanto sem graça você pergunta qual o conteúdo da aula. E para sua surpresa ouve:



- Nós cantamos musiquinhas em francês, fazemos recortes, colagens com jornais e revistas e também joguinhos para crianças.


- Ah...


De repente você olha no relógio de pulso que não possui e diz:


- Putz!!! tenho um trabalho para entregar! Depois a gente se fala!


Ela sorri.


Você parte.


Subindo os degraus, voltando para sua aula, você pensa consigo mesmo: musiquinha, recorte, joguinho??? Como é o TCC, então? Preencher um caderninho de palavras cruzadas? Molde com massinha? Brincar de pega-pega com a banca que avalia o projeto/tese?


E então você se dá conta do quanto sua aula estava bem mais atrativa!



São Paulo, 13 de setembro de 2013

sábado, 10 de agosto de 2013

O Ministério da Saúde Adverte?



"Quando a morte conta uma história, 
você tem que parar pra ouvi-la."
  - Markus Zusak


Já passava da meia noite quando desci do ônibus e entrei em uma viela que liga a avenida principal do bairro onde moro à rua da minha casa.

Saquei um cigarro do maço e coloquei-o na boca; peguei o isqueiro com a mão direita, já que a esquerda estava ocupada com o celular e, quando ia acender o cigarro, notei que um homem vinha em minha direção...

O fato de eu ser pequeno faz com que veja qualquer pessoa com mais de um metro e oitenta de altura como se fosse um gigante, mas aquele cara era bem maior que isso. Não bastasse o seu tamanho e o fato da viela não ter iluminação alguma, o sujeito era tão negro. Não que eu seja preconceituoso, mas não poder distinguir uma pessoa na calada da noite não é algo que me deixa confiante.

Quando se aproximou um pouco mais, consegui identificar o sujeito pelo uniforme: era um policial. E por um momento não soube se deveria ficar tranquilo ou preocupado: a arma que, normalmente, deveria estar no coldre, estava à mão!

 Como havia um carro estacionado na viela, calculei que, se eu fosse - um pouquinho só - para a direita, haveria espaço suficiente para que nós dois passássemos lado a lado sem que um esbarrasse no outro. E assim o fiz: enquanto andava, direcionei-me, suavemente, uns vinte centímetros ou pouco mais para a direita... Subitamente, ele se moveu cerca de um metro ou mais em minha direção.

À medida que se aproximava, percebi que seus olhos estavam injetados: aquela parte branca dos olhos, a esclera, que, normalmente, deveria ser branca, estavam vermelhas... Vermelhas demais.

- 'Ta vindo do trabalho? - E ao mesmo tempo em que fez a pergunta com aquela voz cavernosa, sua mão esquerda procurava algum objeto suspeito à altura da minha cintura. Por instinto ergui as mãos próximas à cabeça. Celular na esquerda, isqueiro na direita e cigarro à boca.

- Da faculdade.

Apontando a cabeça em direção a minha mochila, ainda me revistando com a mão esquerda disparou:

- O que tem aí? 

Movido por uma frieza absurda que dominou minha mente naquele instante, respondi num folego só:

 - Um caderno um guarda-chuva uma revista uma camisa de flanela uma jaqueta esportiva dois livros e um estojo.

Por alguma razão que desconheço, se ele me perguntasse o que havia dentro do estojo ou quantos zíperes tinha a mochila eu também saberia responder.

- Tem passagem?

- Não. Nenhuma.

- Usa drogas?

Esta pergunta me deu uma certa vontade de rir, mas eu resisti bravamente. Sinceramente, observem a situação: é madrugada, você encontra com um policial em atividade para lá de suspeita, olhos estranhamente vermelhos, com a arma na mão e você responde o que mediante uma pergunta desta? Que fuma um baseado, que cheira um pó, que se injeta... Só se estiver muito chapado!

- Não. Nada.

Um pequeno silêncio de cinco segundos pesou entre nós. E eu ainda estava com as mãos à altura da cabeça: celular em uma, isqueiro na outra e cigarro à boca.

- Mora por aqui?

- Naquela rua. - Disse, apontando com a cabeça, o nome da rua em frente à viela e o número da minha casa.

- Vai pra casa, filho. 

- Obrigado. Boa noite e bom trabalho.

Ainda possuído por aquela frieza absurda, caminhei os quatro metros mais distantes da minha vida, e em nenhum momento, nem sequer um lampejo de pensamento, passou pela minha cabeça a necessidade de olhar para trás.

Os quatrocentos metros seguintes, que separam a viela da minha residência, passaram-se em um piscar de olhos. E somente quando fui pegar a chave para abrir o portão, percebi que o celular continuava na esquerda, o isqueiro na direita e o cigarro apagado à boca. 

Sentei no pequeno degrau que separa o portão da calçada, e pensei: um policial andando sem parceiro, à meia noite, sem viatura, em uma vielinha sem iluminação, na periferia de São Paulo, onde já ocorreram diversos assassinatos e execuções não resolvidas, com a arma em punho? 

"Quem eu realmente vi naquele momento? Um policial com conjuntivite? Um lobo solitário ou um cachorro louco? Tem diferença? Teria sido a própria morte? Um encontro destes, o Ministério da Saúde Adverte?  

Inevitavelmente veio-me à mente: "Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando." E querem saber? Pessoa estava certo... Dane-se o politicamente correto: acendi o cigarro e fumei... E aquele foi o cigarro mais saboroso que fumei até hoje!  




São Paulo, 10/08/2013